O Jogo do Treinador
Há uma pergunta que continua a ser feita no futebol como se fosse um grande dilema: deve o treinador liderar com os jogadores? A resposta é tão simples quanto incómoda. Sem jogadores não existe liderança. Mas liderar não significa governar por decreto, referendo ou conveniência!!!
Um treinador que delega o rumo da equipa nas pequenas vitórias e derrotas, ou no estado de espírito e nos interesses de cada jogador, do balneário, não está a liderar. Está apenas a gerir consensos por conveniência, por reação. Pode resolver problemas imediatos e circunstanciais, mas dificilmente construirá uma identidade ou uma cultura verdadeiramente vencedora.
O treinador, como qualquer gestor competente, tem uma responsabilidade inegociável: definir o caminho e fazê-lo acontecer. Cabe-lhe selecionar a informação relevante, antecipar, estabelecer prioridades e criar uma lógica coletiva que dê sentido às decisões individuais. O modelo de jogo não deve ser um catálogo de sistemas ou métodos, mas a expressão de princípios que orientam comportamentos, consolidam uma identidade e ajudam cada jogador a perceber o seu papel dentro da lógica coletiva.
Tal como em qualquer organização, liderar é compreender o contexto, gerir expectativas e mobilizar pessoas em torno de um objetivo comum. Isso pode exigir ajustes no método, no sistema e sobretudo redefinição de prioridades e adaptação ao momento, mas nunca colocar em causa a visão, a direção estratégica, nem a responsabilidade coletiva.
Quando um treinador vive apenas obcecado com sistemas, movimentações táticas ou fórmulas para ganhar o próximo jogo, é porque que ainda não compreendeu o jogo para além dos holofotes... O jogo do treinador joga-se todos os dias, longe dos holofotes, na construção de uma cultura, de uma liderança coerente e de uma identidade coletiva que potenciam o talento individual, fortalecem a equipa e sustentam o sucesso ao longo do tempo.
Bruno Travassos
Vice-Presidente da ANTF