Entre a exigência e a paixão
O crescimento do futebol feminino tem sido acompanhado por uma maior exigência, organização, profissionalização e procura por melhores resultados. São dimensões importantes e necessárias para a evolução da modalidade. No entanto, não podemos permitir que, no caminho da profissionalização, se perca aquilo que está na origem de tudo: a paixão pelo jogo.
No futebol de formação, desenvolver uma jogadora implica muito mais do que avaliar resultados. É ensinar, acompanhar, corrigir, incentivar e criar condições para que cada jogadora possa evoluir de acordo com o seu potencial. Exigência e responsabilidade devem existir, mas sempre acompanhadas de respeito, equilíbrio e sentido pedagógico.
O erro faz parte da aprendizagem. A pressão excessiva, a desvalorização ou a perda de confiança não podem ser confundidas com métodos de formação. Uma jovem jogadora deve sentir que pode aprender com os seus erros, ultrapassar dificuldades e continuar a acreditar nas suas capacidades. Falar de desenvolvimento do futebol feminino implica também falar das condições em que este se pratica.
Horários, instalações, equipamentos, transportes, organização das competições, acompanhamento das atletas e comunicação com as famílias são elementos fundamentais para garantir estabilidade e qualidade. Não podemos exigir profissionalismo às jogadoras e às famílias sem assegurar, do outro lado, estruturas organizadas, responsáveis e capazes de responder às necessidades das equipas.
É igualmente essencial valorizar quem trabalha diariamente na formação: treinadores, treinadoras, dirigentes, técnicos, colaboradores e famílias. Formar uma equipa não significa apenas preparar treinos e jogos. Significa desenvolver pessoas, criar relações de confiança, transmitir valores e construir ambientes onde as atletas possam crescer desportiva e pessoalmente.
Uma equipa não pode ser avaliada exclusivamente pelos resultados. Uma época também se mede pelas jogadoras que evoluíram, pela confiança que adquiriram, pela capacidade de ultrapassar dificuldades e, sobretudo, pela vontade de continuar a jogar. Por isso, o futuro do futebol feminino deve assentar em três pilares fundamentais: formação de qualidade, condições adequadas e respeito pelas pessoas.
Queremos jogadoras competitivas, mas também confiantes.
Queremos treinadores e treinadoras exigentes, mas também preparados e apoiados.
Queremos estruturas profissionais, mas também responsáveis e humanas.
O crescimento da modalidade não se mede apenas pelo número de equipas, competições ou resultados. Mede-se também pela capacidade de criar ambientes onde as raparigas queiram permanecer, aprender e continuar a amar o jogo. Porque os resultados passam, as classificações mudam e as épocas terminam. Mas a relação que uma jovem constrói com o futebol pode acompanhá-la para toda a vida.
Não podemos aceitar que a pressão seja apresentada como método, que a desorganização seja tratada como inevitável ou que o futebol feminino continue a ser construído sobre o esforço silencioso de jogadoras, famílias, treinadores e treinadoras.
É preciso exigir melhores condições, respeito, planeamento e responsabilidade.
É preciso proteger a paixão, alimentá-la e ensinar através dela.
Porque o futuro do futebol não depende apenas dos grandes talentos que conseguimos descobrir. Depende também das condições que criamos, das pessoas que apoiamos e de quantas crianças e jovens conseguimos fazer acreditar que vale a pena continuar a jogar. Entre a exigência e a paixão, está o desafio de construir um futebol feminino mais forte, mais humano e com futuro.
Alfredina Silva
Vice-Presidente da ANTF