Henrique Calisto, presidente da Associação Nacional de Treinadores de Futebol, concedeu uma entrevista ao Diário de Notícias, onde abordou a questão dos despedimentos prematuros de treinadores nas ligas profissionais do futebol português. Na conversa com a jornalista Cecília Carmo, o líder da ANTF defendeu a existência de maior estabilidade por parte de quem define os projetos desportivos nos clubes, e destacou ainda outros temas como a internacionalização dos técnicos portugueses, a formação e necessidade de oportunidades para treinadoras. Isto sem esquecer o recente caso entre o selecionador Jorge Jesus e o capitão da Seleção Nacional, Cristiano Ronaldo. Leia aqui a entrevista na íntegra.
Henrique Calisto defende Jorge Jesus no caso Ronaldo: "Ler o comunicado seria humilhante para o treinador"
O presidente da ANTF defende a autoridade de Jorge Jesus no caso Cristiano Ronaldo, pede mais estabilidade para travar despedimentos precoces e aponta a formação, a internacionalização dos técnicos portugueses e as oportunidades para treinadoras como prioridades.
Texto: CECÍLIA CARMO
O caso de Cristiano Ronaldo e Jorge Jesus voltou a pôr em evidência o peso que um jogador de grande estatuto pode ter. Como deve um treinador gerir uma situação destas?
É evidente que Cristiano Ronaldo tem um estatuto diferente. Mas esse estatuto não pode pôr em causa o papel do treinador nem a hierarquia dentro da equipa. Escolher os convocados, decidir o onze e fazer as substituições são competências do treinador. Se o técnico deixa de poder tomar essas decisões por causa do estatuto de um jogador, corre o risco de perder o respeito da equipa. O treinador tem de respeitar os jogadores, mas os jogadores também têm de respeitar as funções do treinador. Jorge Jesus, neste caso, defendeu as competências que pertencem a quem orienta a equipa
O percurso de Cristiano Ronaldo deve pesar na decisão do treinador?
O treinador tem de conhecer o percurso, o estatuto e a personalidade de cada jogador. Não fala nem se relaciona da mesma maneira com todos, porque cada um tem as suas circunstâncias, o seu passado e a sua realidade. É necessário ter esse cuidado. Mas esse cuidado tem um limite. O treinador não pode abdicar dos princípios que definem a sua função. Pode conversar, explicar uma decisão e procurar um entendimento, mas continua a ser o responsável por escolher a equipa, os convocados e as substituições. Se deixa de poder tomar essas decisões, deixa também de exercer plenamente o seu papel.
O treinador deve tornar públicas as conversas que tem com um jogador?
Depende de cada caso. O treinador tem de saber falar como grupo no seu conjunto, mas também de manter uma relação diferente com cada jogador. Cada um é um mundo diferente, com estatutos, circunstâncias e percursos próprios. Ainda assim, о treinador não pode abdicar dos seus princípios. Se há respeito do treinador pelos jogadores, também tem de haver respeito pelas tarefas do treinador. Caso contrário, o técnico desvaloriza o seu próprio papel.
Jorge Jesus fez bem em não ler o comunicado de Cristiano Ronaldo?
Fez aquilo que devia. Ler aquele comunicado seria quebrar a hierarquia e até humilhante para o próprio treinador. O treinador tem de ser claro sobre a sua posição, mas não pode deixar de exercer a sua função para responder nos termos definidos por outra pessoa.
A Federação deve defender mais claramente o treinador?
A Federação tem de defender o treinador e a equipa. Cristiano Ronaldo merece terminar a sua ligação à seleção de uma forma condigna com o percurso que construiu. Isso é indiscutível. Mas também é necessário defender o
treinador e o grupo. Por vezes, perde-se um jogador, mas ganha-se uma equipa. Estas situações podem ser resolvidas, desde que se respeite o papel de cada um. Jorge Jesus tem mostrado abertura para encontrar uma saída que respeite Cristiano Ronaldo e a seleção, sem pôr em causa a autoridade do treinador.
A experiência é suficiente para preparar os técnicos para conflitos desta dimensão?
A experiência é fundamental, mas é importante preparar os treinadores antes de estas situações surgirem. A gestão de conflitos e a liderança devem fazer parte da formação, sobretudo nos cursos destinados a treinadores de elite. Os conflitos existem em todas as equipas e em diferentes momentos. A experiência ajuda a encontrar soluções, mas uma reflexão mais aprofundada sobre estas matérias pode dar aos treinadores mais instrumentos para agir. É uma preocupação da ANTF que estes temas sejam trabalhados nos cursos.
A sucessão de mudanças no comando técnico dos clubes profissionais tem sido uma constante no futebol português, que preocupa a ANTF...
Eu diria que foram sete saídas na Primeira Liga e três na Segunda. É um número elevado e mostra que continua a haver pouca estabilidade. Sem querer pôr em causa a autonomia dos clubes, estas mudanças mostram que os projetos não estão a ter a continuidade que treinadores e direções entenderam ser necessária quando começaram a trabalhar juntos. Nas últimas épocas, o número de mudanças também tem sido significativo. Nas duas principais divisões, foram 29 em 2023/24, 37 em 2024/25 e 23 em 2025/26. Pensávamos que estes números poderiam diminuir, mas isso não tem acontecido de forma consistente.
O que explica esta sucessão de despedimentos?
Quando os resultados não aparecem, todos são chamados à responsabilidade, mas quem acaba quase sempre por pagar é o treinador. A escolha é feita por quem contrata. Normalmente, o técnico é chamado para levar por diante um projeto que também é definido pela direção e que, muitas vezes, está muito ligado à visão do presidente. Se a direção acredita que aquele treinador é a pessoa certa para concretizar os objetivos do clube, tem de lhe dar condições para trabalhar. Não é possível contratá-lo para um projeto e, pouco depois, afastá-lo sem avaliar se teve oportunidade de o desenvolver.
O presidente não treina a equipa nem dá indicações durante os jogos. Porque é que o treinador acaba por ser o primeiro a sair?
Porque é a figura mais exposta. Está todos os dias no campo, trabalha diretamente com os jogadores e é o rosto do projeto desportivo. Mas, quando os resultados não aparecem, é preciso olhar para о contexto e perceber se o trabalho teve tempo para produzir efeitos. A decisão não pode ser tomada apenas em função do resultado mais recente.
É possível construir uma equipa em poucas semanas?
É muito difícil, sobretudo quando não há continuidade. Muitas equipas são novas, têm jogadores de várias nacionalidades e que ainda não se conhecem. Chegam treinadores novos a clubes novos, com circunstâncias diferentes, e espera-se que tudo funcione de imediato. O treinador precisa de tempo para transmitir as suas
ideias, criar rotinas e conhecer os jogadores. Não há ninguém que consiga pôr uma equipa a jogar bem em um ou dois meses, quando não existe trabalho de continuidade. Se um clube aposta na renovação e em jogadores jovens, uma rutura ao fim de poucas semanas pode interromper o próprio projeto que decidiu começar.
Isso significa que os clubes devem manter sempre o treinador, mesmo quando os resultados não aparecem?
Não. Há ruturas necessárias, quando existe um afastamento entre o treinador e a equipa ou quando já se tentou tudo. Mas não se pode concluir demasiado cedo que já se tentou tudo. É preciso permitir que o treinador mostre o que quer fazer e que a equipa revele se está a evoluir. A estabilidade, por si só, não garante melhores resultados. Mas é uma condição importante para que o trabalho possa ser avaliado. O que temos visto é que, por vezes, os clubes decidem mudar antes de conseguirem perceber se o processo estava a resultar.
A ANTF defende mais estabilidade por uma questão corporativa?
Não. Não é um sentimento corporativista nem uma tentativa de interferir na autonomia dos clubes. É uma defesa do futebol. Queremos um melhor espetáculo, com equipas mais fortes, mais organizadas e mais concentradas. Para isso, é necessário que treinador e direção trabalhem para os mesmos objetivos e que haja tempo para criar uma equipa capaz de os cumprir.
Os jogadores também podem contribuir para a saída de um treinador?
Pode haver conflitos entre treinador e jogador. Quando existe um desligamento entre os dois, isso pode ser o princípio de um problema. Mas não diria que essa é a causa mais frequente para o despedimento de um técnico. Acontece, sabemos que acontece, mas é uma exceção. O treinador tem de gerir a relação com os jogadores e garantir que a equipa continua a trabalhar. Há situações em que atitudes ou declarações podem desviar o técnico do seu trabalho, mas não é essa a regra. O que vemos com mais frequência é o treinador a ser afastado por decisão dos dirigentes, muitas vezes em função dos resultados.
A ANTF criou este ano um ConseIho Técnico Nacional. Que trabalho espera desta estrutura?
O Conselho deve estudar os problemas do futebol e produzir documentos que ajudem a aprofundar a reflexão. Queremos olhar para a formação dos treinadores, para os referenciais dos cursos e para áreas como a gestão de conflitos, a evolução tática do jogo e as tendências futuras. A inteligência artificial também tem de ser analisada. Já existem modelos que ajudam a preparar o treino e a tirar conclusões sobre o rendimento dos jogadores. É importante perceber como essas ferramentas podem ser usadas e que impacto podem ter no trabalho dos treinadores. O Conselho junta pessoas de áreas diferentes: treinadores da Primeira Liga, profissionais com experiência académica e representantes da formação, do futsal, do treino de guarda-redes e da preparação física. Essa diversidade permite analisar os problemas de várias perspetivas.
Portugal tem cerca de 500 treinadores a trabalharem 56 países.Como pode a ANTF ajudar a valorizar essa presença?
O treinador português é uma das marcas de afirmação do nosso país. Temos cerca de 500 treinadores no estrangeiro, distribuídos por 56 países. São profissionais que levam consigo uma forma de trabalhar e ajudam a projetar o futebol português. No início deste mandato, procurámos a AICEP para que essa marca fosse promovida de forma sistemática e para que houvesse uma maior divulgação dos treinadores portugueses junto de clubes e organizações estrangeiras. Até agora, não tivemos resposta. É preciso olhar para o futebol também como uma área de exportação, pelo valor que treinadores e jogadores levam para outros países.
Que outras iniciativas podem ajudar os técnicos portugueses a afirmar-se no estrangeiro?
Estamos a trabalhar em contactos com associações congéneres. Com a associação de treinadores de Inglaterra, por exemplo, procuramos criar condições para um protocolo que permita intercâmbios na formação e a realização de estágios. Os treinadores portugueses poderiam estagiar em Inglaterra e os ingleses poderiam vir a Portugal. Estes contactos permitem conhecer outras realidades e mostrar o trabalho que é feito pelos treinadores portugueses. São também uma forma de reforçar a nossa presença e de dar visibilidade às competências dos técnicos nacionais.
E no que diz respeito às treinadoras, que passos faltam dar?
Já foi dado um passo importante como alargamento da formação. A oferta de cursos aumentou e estamos também a preparar um curso destinado aos treinadores portugueses que trabalham no estrangeiro, para responder a uma lacuna que existia. Queremos continuar a alargar as oportunidades e a dar mais condições às nossas colegas treinadoras.
Há qualidade entre as mulheres treinadoras para chegarem aos níveis alcançados pelos homens?
Claro que há. E necessário dar-lhes oportunidade e tempo para adquirirem experiência. O sucesso dos treinadores portugueses também resulta de características que não se aprendem apenas nos cursos: solidariedade, disponibilidade e capacidade de adaptação. O homem português e a mulher portuguesa têm qualidades importantes para o futebol. São abertos, disponíveis, envolventes e inclusivos. Num jogo cada vez mais globalizado, com jogadores de diferentes países, etnias e religiões, essas características ajudam a integrar os grupos. As treinadoras portuguesas também têm essas qualidades e devem ter oportunidade para as demonstrar.