Jornal Record 7 maio 2026
Crescimento sem oportunidade: a realidade das treinadoras de futebol em Portugal
Todos os anos, a 8 de março, assinala-se o Dia Internacional da Mulher, uma data de reflexão e reivindicação da igualdade de direitos e oportunidades, do combate à discriminação e à violência, e da valorização do papel da mulher na sociedade. A importância deste dia deve estender-se a todos os outros, para lembrar muitas das conquistas das mulheres, mas sobretudo para não esquecer que ainda há um longo caminho a percorrer.
Hoje vamos falar de Futebol e do aumento significativo de mulheres com formação específica e interessadas em seguir a carreira de treinadora. No entanto, essa presença é mais visível nos escalões de base e praticamente invisível nos níveis mais altos de competição. Trata-se claramente de um problema de oportunidade e não de qualificação ou de competência.
As oportunidades para as mulheres treinadoras, neste nível competitivo, são escassas, a confiança demora a ser concedida e a margem de erro é frequentemente menor à permitida a homens treinadores. Muitas mulheres que entram na carreira de alto nível não conseguem consolidar um percurso sustentado, por falta de continuidade, de acompanhamento e, sobretudo, pela falta de estratégia de integração.
A herança cultural do papel de treinador(a) continua associado a uma imagem tradicionalmente masculina, o que influencia decisões e processos de recrutamento. Conhecimento técnico-tático profundo, liderança, gestão de pessoas, comunicação eficaz e capacidade de planeamento são competências exigidas a qualquer treinador(a), mas que continuam a ser percecionadas de forma desigual quando exercidas por mulheres.
É, por isso, essencial que o crescimento do número de treinadoras qualificadas não se esgote em números. Exige-se um compromisso real com a igualdade de oportunidades, que passe pela revisão dos critérios de recrutamento e das redes de decisão.
Não se trata de uma questão simbólica, nem de quotas. Trata-se de qualidade, de diferentes perspetivas e de desenvolvimento sustentável da modalidade. Equipas técnicas mais diversas são, comprovadamente, mais competentes. Ignorar este potencial é limitar o próprio desenvolvimento do futebol.
Alfredina Silva
Vice-Presidente da ANTF

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